Estamos Perdidos! (ou uma mãe em pleno surto psicótico) – Parte 4

Ah sim, a escola!

Mas voltando ao tema original, escola pra mim é coisa séria, muito mais séria quando a vítima tem 1 ano de idade. Por isso escolhi uma escola construtivista, mas de verdade. Quero mesmo minha filha aprendendo com prazer, gostando de estudar, compartilhando conhecimento e longe, muito, muito longe dos espaços de competição, de valorização excessiva da aparência, da decoreba, da preocupação exclusiva em tirar notas boas e passar de ano. Eu quero que ela descubra agora, enquanto é criança o que eu só pude descobrir recentemente: que aprender significa construir, somar e não somente absorver conteúdos sem sentido. Quero que ela cresça sabendo que trabalho é prazer, tem que ser prazer, senão não vale a pena. Quero que ela seja capaz de ganhar a vida fazendo o que gosta e que tenha vontade de mudar o mundo pra melhor, que isso a mova mais do que a necessidade de juntar dinheiro e acumular bens.

 

Mas a dura e feia realidade se apresentou e não deu pra ficar nessa escola. Longe de casa, horário curto, mandar um bebê de condução, sem chance.

Chorei, chorei, mas não desisto fácil. Ainda sou movida pelo que acredito, graças a Deus. Optei então por uma escolinha perto de casa, bem pequena, muito acolhedora. Visitei várias vezes, em diferentes horários e em todas as vezes gostei. O defeito que apareceu, foi meu marido que apontou: Tem muitas escadas. A escola é vertical! Pode ser perigoso. Engraçado como tudo depende do ponto de vista, né? Eu acho bom que tenha escadas. Claro que pode ser perigoso, mas pode ser muito positivo as crianças aprenderam a subir e descer escadas e também a respeitarem os perigos da vida. E realmente, elas aprendem. Sempre preferi ensinar a minha filha como fazer do que proibir, simplesmente. Hoje, depois de 2 meses na escola, ela já sabe subir sozinha e descer de mão dada. E o que é melhor, ela sabe seu limite. Para subir, vai embora. Para descer diz: “mão”, e segurando minha mão, desce tranquilinha.

Fico mais tranqüila assim. Reduzimos bastante a chance de um acidente em escadas, pois ela tem noção de seus limites.

 

Mas essa semana eu vi algo assustador no mural da escola. Havia uma circular sobre as atividades de abril, incluindo, na semana da Páscoa, uma caça ao tesouro com moedas de chocolate. Por um instante surtei. Veio de tudo a minha cabeça. Meu Deus! O mundo está mudando, as pessoas deveriam estar preocupadas em voltar um pouco a natureza, a saúde, a leveza… por que não rodelas de cenoura (o coelhinho da Páscoa não devia comer cenouras?) O que afinal o chocolate tem a ver com a Páscoa? Não sei. Todo mundo sabe que na Páscoa se come chocolate até ficar com dor de barriga. Sempre amei a Páscoa por causa disso, e só por causa disso. Mas o mundo mudou, até eu mudei.

Minha filha não come açúcar. Não come por opção minha e, no que depender de mim, vai continuar sem comer, se possível para sempre (tá bem, não vai. Eu sei. Mas vou lutar para que aprenda a ingerir o veneno com moderação e, acima de tudo, consciência).

Já entrei em contato com a nutricionista da escola e, não sei se fico feliz ou triste, mas ela deu a entender que não tinham se tocado disso. Existem outras crianças, além da minha, que não comem açúcar (tem também as que não podem com leite). Outra mãe já havia falado com ela sobre isso. Bom, ela me disse que iria tratar desse assunto na reunião e que daria uma solução para o caso, algo do tipo, chocolate sem açúcar e chocolate sem lactose.

Bom, posso dizer que é satisfatório encontrar uma solução para o caso, ainda que não seja uma solução perfeita (afinal, não existe escola perfeita). Mas posso dizer também que a infeliz idéia de moedas de chocolate, embora pareça inocente, é uma tragédia. Unimos numa só atividade a busca pelo dinheiro – símbolo triste do capitalismo  - procurar por todos os cantos moedas embaladas em papel dourado e a porcaria do chocolate (esse industrializado que tem mais açúcar do que qualquer outro ingrediente), já contribuindo com o vício das pobres e indefesas crianças.

Estou exagerando? Será? São crianças. Precisam mesmo se envolver com dinheiro e com açúcar tão precocemente? Afinal, estamos falando de duas drogas pesadas que aprisionam as criaturas mais bondosas do planeta, tornando-as dependentes capazes de muitas loucuras para conseguir mais e mais…

Devo estar mesmo louca. O mundo é assim, não é? Mais cedo ou mais tarde as inocentes crianças vão ter que conviver com o dinheiro e com o açúcar. Por que não mais tarde? Muito mais tarde? Por que não, antes disso, não prepará-las para lidar com as conseqüências dessas drogas e aí sim, depois, deixar que a vida se encarregue das apresentações e não a escola, e não os pais, e não os avós, que afinal, têm teoricamente a função de educar.

Pronto: voltamos a discussão do conceito de educação!

É, meus amigos, estamos perdidos!

 

Para quem quiser saber mais sobre a droga do açúcar:

- Sugar Blues: o gosto amargo do açúcar – Willian Dufty – editora Ground

- Sem açúcar com afeto – Sonia Hirsch – editora Correcotia

  1. #1 by Armando Faria on 06/04/2011 - 15:05

    1992. Este foi o ano que mudei para o Rio e fui apresentado a Sugar Blues (http://meuartigo.brasilescola.com/doencas-saude/o-gosto-amargo-acucar.htm)

    Desde então, e já lá vão 19 anos, não como açúcar refinado. Não o uso no café (que consumo em larga escala), no leite, em nada que não seja inevitável, como um bolo de aniversário, ou coisa que o valha.

    O meu filho Pedro, que vc conhece, aos 16 anos não adoça nada. Essa lição foi exemplificada pelos pais, pois nenhum dos dois “come” açúcar.

    Acredita, a Helena não sentira falta dele. Nem vc.

    Bons ventos

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