Educação sf. 1. Ato ou efeito de educar (-se). 2. Processo de desenvolvimento da capacidade física, intelectual e moral do ser humano. 3. Civilidade, polidez.
- Meus filhos só tiram nota boa na escola! Diz a mãe orgulhosa.
A menina de sete anos cruza as perninhas ao sentar-se. Só diz “obrigada”, “por favor”, pede autorização para tudo. Essa imagem me remete àqueles estereótipos de robôs escravos, programados para servir e provar a superioridade de seu proprietário e senhor em contraste com a sua incapacidade de pensar e decidir por conta própria. Isso é educação?
Jamais essa mãe pensará que só tirar notas boas pode não ser necessariamente uma coisa boa? Tirar notas boas no ensino tradicional, todo mundo sabe, não implica necessariamente conhecimento, não implica necessariamente aprendizagem. Sabemos, falemos bem baixinho, que, na maioria das vezes, implica em capacidade de memorização em curto prazo.
Qual é a vantagem então do seu filho só tirar notas boas na escola?
Eu, sinceramente, não vejo nenhuma, além de passar de ano e ser o “orgulho dos pais”. Vejo vantagem em crianças curiosas, corajosas, que procuram informações, que pensam a respeito do mundo, que se arriscam a inventar soluções, usando aquilo que costumava nos diferenciar dos outros animais, o raciocínio. Não é por acaso que essas crianças, freqüentemente, entediam-se nas escolas, tiram notas apenas razoáveis, perdem o foco de atenção nas aulas e dedicam-se a outras atividades, o que resulta em advertências para os pais e, não raramente, em diagnósticos de dificuldades de aprendizagem acompanhados de indicações de psicólogos e psicopedagogos para “adequá-las ao sistema”. Muitos pais não têm tempo para prestar atenção em seus filhos, não têm tempo para brincar com seus filhos, não têm tempo para conversar com seus filhos. Muitos pais não conhecem seus filhos, senão através do boletim e da caderneta de anotações da professora.
Esses pais que não ouvem os seus filhos, que não perguntam o que eles gostam, impõem o que eles, pais, acreditam que seja bom, certo, útil. E esses pais acreditam que sabem tudo, que sempre têm razão e que seu filho, pobrezinho, é incapaz MESMO de fazer qualquer coisa sozinho.
Gaiarsa nos fala do esforço da mãe antiga na “educação” de seus filhos. Ela precisa ser insubstituível porque abriu mão da própria existência para se dedicar às crianças. Ela faz tudo por eles e eles não aprendem a fazer nada, quando aprendem não fazem porque há quem faça por eles. Fora isso, a auto-estima dessas crianças fica muito prejudicada, pois elas nunca têm a oportunidade de fazer nada, de se sentirem capazes, de resolverem problemas. Muitas dessas mães, muitas mesmo, insistem em cuidar dos filhos para sempre, produzindo aquelas cenas ridículas da mamãe que arruma as roupinhas do executivo quarentão ou, mais bizarro ainda, da mamãe, que invade o quarto do casal para levar o leitinho do filho que não tem se alimentado muito bem.
Essas mulheres criaram uma armadilha difícil de escapar. Se elas deixarem seus filhos crescerem o que será delas? Qual será sua utilidade? Que sentido terá sua vida? Quanto mais dependentes são os filhos, mais escrava é a mãe. Essa situação, por incrível que pareça, é cômoda para muitas mulheres. Por isso mesmo, ainda hoje, vemos jovens mães reproduzindo a vida de suas mães, avós, bisavós, etc.
Impor às crianças pais donos de verdades absolutas, infalíveis, que sabem tudo é um erro grosseiro. Acreditar que as crianças são incapazes de compreender a vida é uma estupidez. A capacidade de percepção das crianças é muito maior do que a dos adultos, já viciados em máscaras. Os pequenos sabem quando mentimos, quando entramos em contradição, quando estamos inseguros, com medo. Se nós negamos nossas expressões corporais e nos agarramos ao discurso vazio das aparências, perdemos a nossa credibilidade. As crianças deixam de acreditar em nós e passam, então, a imaginar e interpretar nossas reações e nossas mentiras de acordo com as circunstâncias e com suas observações.
Deixar as crianças vendo TV a tarde toda é muito prático. Não compartilhar desse momento, não conversar sobre o que foi visto, é mais prático ainda, poupa tempo e reduz a bagunça (aquela que só a mãe sabe arrumar). Mas são os pais que ensinam aos filhos a imitação da TV. São eles que repetem o que ouvem como verdade absoluta e são eles que procuram nas lojas as roupas e os objetos mostrados na TV. São os pais que ensinam aos filhos a desejarem sem questionar, a fazerem o que todos fazem sem pensar a respeito. Só porque saiu na TV, só porque saiu no jornal, porque está escrito nas “escrituras sagradas do senso comum”.
Os pais se justificam dizendo: – ele vê isso na televisão, é ele que gosta.
Televisão?
Antigamente, os filhos acreditavam que seus pais eram as melhores pessoas do mundo. Até certa idade, todas as crianças queriam ser como seus pais. Hoje, não é mais assim. Os pais são uns imbecis que não têm opinião, que não têm aspirações, que não têm sabedoria nenhuma. São eles que imitam a TV.
Aquela mesma mãe orgulhosa das boas notas dos filhos, de repente, ouve o filho falar de um assunto que ela não domina e se surpreende:
- Nunca falamos sobre isso em casa!
Se ela considera uma bobagem, esquece o assunto. Se o tema for polêmico, desvia, desmente e esquece o assunto, provavelmente dizendo:
- Pare da falar besteira e vai estudar, menino!
#1 by Aline on 03/08/2009 - 14:00
Nossa, Mari, há muito tempo não leio um texto tão bom!…
Sensível, na sua percepção e denúncia tão claras da “cena” descrita!
Um prazer te ler! – que só descobri agora…
Beijos, com desejos de que vcs estejam bem!