Arquivo de julho \30\UTC 2009

Consumismo, Educação e Futuro

Em 1997 realizei uma pesquisa sobre a influência da televisão em crianças de 1ª a 4ª séries do ensino fundamental, que resultou em minha monografia de graduação. Nessa ocasião me impressionou a diferença entre as infâncias nas classes sociais. Meu objetivo foi comparar os comportamentos e pensamentos das crianças de uma escola particular da zona sul e de uma escola pública de uma comunidade carente da zona norte do Rio de Janeiro.

Nas minhas entrevistas, sempre em grupos de quatro a seis crianças, pude observar que a infância na favela, embora muito influenciada pela televisão, estava mais próxima da infância do “meu tempo”, com brincadeiras ao ar livre, aventuras, animais selvagens que habitavam o morro, idealizações de uma profissão, liberdade de pensamento e muita imaginação. Em contrapartida, as crianças de situação social mais privilegiada, viviam em uma espécie de “mundo adulto de mentirinha”, cercadas de regras adultas, preconceitos, necessidades de cuidados com a aparência e com o comportamento que as tornavam pequenos adultos padronizados, aprisionadas a um modelo de vida mecânico e nada autêntico. Obviamente, essas crianças passavam mais tempo diante da TV do que as crianças economicamente menos favorecidas. Mas isto não acontecia porque as mais pobres não tinham aparelho de televisão (muitas vezes possuíam em maior quantidade), nem porque os pais não permitiam que elas assistissem TV (ao contrário, as mães imploravam aos filhos que ficassem dentro de casa para se protegerem de eventuais tiroteios, tão comuns nas favelas).

Poderia dizer que no morro não tem trânsito como na cidade, mas tem tiro. Poderíamos supor que a geografia da favela é mais atraente para brincadeiras ao ar livre, mas os playgrouds dos condomínios fechados não foram projetados para isso?

Atribuo essa diferença de comportamento a uma variação cultural, simplesmente.

Hoje assisti ao documentário “Criança, a alma do negócio”, dirigido por Estela Renner e produzido por Marcos Nisti. Um trabalho muito especial, executado com maestria, que fala sobre a publicidade dirigida às crianças. Na verdade, esse vídeo traz elementos que vão muito além do tema proposto e nos leva, obrigatoriamente, a uma reflexão dolorosa mas necessária.

Aquele sentimento estranho que tive com os resultados da minha pesquisa em 1997 voltou. É triste constatar certas realidades. Ainda que estas nos sejam óbvias, quando ditas claramente, quando escancaradas diante dos nossos olhos, chocam, apavoram, desesperam.

Penso nos adultos de um futuro muito próximo. Um futuro que já é presente e no qual você é o que você tem. A inclusão social se dá pelo patrimônio material. Quem não pode “ter” fica nos guetos, frustrado, humilhado.

Nossas crianças são estimuladas a um desejo de consumo irreal, desnecessário, que nunca preenche o vazio existencial que, tão precocemente, se apresenta em meio a tantos produtos e máscaras. Não ter é ser impotente, é ser incapaz e sem valor.

A individualidade se esvai. Vivemos em um processo incessante de homogeneização, criando uma sociedade igual, monótona, povoada por criaturas padronizadas e mecanizadas.

Os pais se matam para poderem oferecer aos filhos todos os brinquedos, roupas e aparelhos eletrônicos que, muitas vezes, não são sequer usados. E as crianças querem mais e mais. Ninguém pode suportar a frustração de não ter.

Antigamente, sofrer era parte da vida. Levar uma bronca, não poder comprar um brinquedo, ficar de castigo, terminar um namoro, eram pequenas dificuldades do cotidiano de qualquer um de nós. Hoje, é inadmissível sofrer. Pode-se comprar parcelado, pode-se tomar um comprimido para a tristeza, pode-se esquecer o que é desagradável e só viver o lado bom da vida, mesmo que seja falso.

Essa vida de mentira, essa MATRIX, produz crianças adultas e adultos infantis. Não permite o amadurecimento, a experiência real da vida, com suas dores e seus amores.

A imaginação vai se tornando um atributo cada vez mais raro.

Brincar de viajar em um disco voador, usando um lençol sobre duas cadeiras?

Se você for do meu tempo tudo bem.

Senão, você compra um disco voador “de verdade”, inflável ou automático, monta, brinca e depois esquece em um canto qualquer porque inventaram um vídeo game muito mais realista.

Será essa uma nova cultura? Uma nova maneira de existir? Tudo bem. Pode ser.

A sociedade é dinâmica, tem que ser. Nós, os mais antigos, nos assustamos um bocado com as transformações enquanto que os mais jovens acreditam que sempre foi assim ou que a vida antigamente era inviável…

Quando legalizaram o divórcio, houve uma grande preocupação com a cabecinha das crianças, filhas de pais divorciados e, olha só: tudo se ajeitou, não foi? Bem ou mal, mas pra bem, eu acho, hoje temos uma diversidade interessante de configurações familiares e as crianças construíram, a seu modo, uma forma de lidar com essa “novidade” que para elas era só a única realidade.

O meu sentimento não é exatamente uma preocupação com as “novidades” do nosso mundo atual. É mais uma reflexão sobre o caminho que estamos tomando. Parece-me que estamos construindo um conceito de felicidade cada vez mais distante da capacidade humana.

O que buscamos na vida, no meu entendimento, está se tornando cada vez mais irreal. As realizações, cada vez mais, instantâneas e frágeis. As conquistas expressas têm um sabor menos elaborado e a vida vai ficando sem graça.

Bom, esse é apenas um ponto de vista.

Para quem tem interesse na discussão e quer pensar mais a respeito, segue o link do documentário “Criança, a alma do negócio” de Estela Renner.

http://www.culturainfancia.com.br/portal/index.php?option=com_content&view=article&id=820:documentario-crianca-a-alma-do-negocio&catid=132:artigos-e-teses&Itemid=168

A produção do documentário abriu mão dos direitos autorais, para que o mesmo possa ser assistido por todas as pessoas que tiverem interesse no assunto.

2 Comentários

Os Parceiros

Mario Quintana


“Sonhar é acordar-se para dentro:

de súbito me vejo em pleno sonho

e no jogo em que todo me concentro

mais uma carta sobre a mesa ponho.

Mais outra! É o jogo atroz do Tudo ou Nada!

E quase que escurece a chama triste…

E, a cada parada uma pancada,

o coração, exausto, ainda insiste.

Insiste em quê?Ganhar o quê? De quem?

O meu parceiro…eu vejo que ele tem

um riso silencioso a desenhar-se

numa velha caveira carcomida.

Mas eu bem sei que a morte é seu disfarce…

Como também disfarce é a minha vida!”

Deixe um comentário

Seiscentos e Sessenta e Seis

Mário Quintana – Esconderijos do Tempo, 1980.

“A vida é uns deveres que nós trouxemos para fazer em casa.

Quando se vê, já são 6 horas: há tempo…

Quando se vê, já é 6a  feira…

Quando se vê, passaram 60 anos…

Agora, é tarde demais para ser reprovado…

E se me dessem – um dia- uma outra oportunidade,

eu nem olhava o relógio

Seguia sempre, sempre em frente…

E iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas”.

Deixe um comentário

A Espera

Esperava alguém, já não me lembro quem, mas estava esperando e já era tarde. Devia ser alta madrugada…o silencio era tão intenso que incomodava. Liguei o rádio e continuei na cama, esperando. A música era romantica, mas não era brega, como dizem hoje de tudo. Tomava aos poucos uns goles de refrigerante comum. Só gosto de refrigerante diet, mas já havia acabado. Esses comuns são muito doces e deixam, na boca, um gosto de frustração irremediável. Tinha também um copo d’água na cabeceira, que intercalava com o refrigerante, para amenizar o gosto ruim. O maço de cigarros, já passava da metade, mas não me preocupava pois sempre havia um fechado na bolsa.

Andava comprando cigarros aos montes ultimamente. E pensar que já não me fizeram falta um dia…mas a gente acaba sempre retomando os velhos habitos. Depois de tudo que aconteceu, passei a fumar um pouco mais e a cada vez que vou compra-los, peço sempre uns três ou quatro maços. Pior que não fuma-los é não tê-los. Certa vez, há muitos anos, perdi a vontade de fumar, mas mantinha uns maços na gaveta da escrivaninha e um na minha bolsa. Refleti sobre isso e conclui que não entraria em guerra comigo mesma, se tivesse vontade fumaria sem nenhuma culpa, afinal, não estava fumando porque não queria e não por estar me obrigando a uma vida sem prazeres. Teria tido sucesso nesta iniciativa, não fosse minha teimosia e vontade de contrariar os outros. Malcriação. Sujeito que conversava comigo pela Internet que disse: “fumar é hábito e todo hábito se adquire após uma repetição de vinte um dias e, para deixar um hábito basta abandona-lo por vinte e um dias.” É uma teoria muito esquisita essa. Resolvi provar que estava furada. No vigésimo segundo dia acendi um cigarrinho vitorioso. Não só provei que o sujeito estava errado como também redescobri o prazer que me dava aquela fumacinha romântica viajando garganta abaixo e voltando furiosa para alcançar as estrelas.

Enfim, acendia mais um cigarro. Entre um gole de refrigerante e um de água, uma fumacinha alardeava a imaginação. A música já era outra, mas também era romântica. Ainda esperava. Tinha uns pensamentos. Alguns profundos, outros nem tanto. Precisava fazer as unhas. Nunca as faço, só arranco as peles em volta, depois de roer tudo o que há para roer. Não é um bom hábito, nem dá nenhum prazer especial como o cigarro, por exemplo. Mas, sem dúvida, é vício. É como enrolar uma mecha de cabelo com os dedos. Não dá para evitar. Simplesmente acontece. Como eu aqui, agora, esperando, esperando não sei quem, não sei o que, como se não houvesse mais nada a fazer.

Fico pensando na loucura dessa vida urbana. O mundo contemporâneo. Para onde estamos indo, afinal? Não há nada em lugar algum. Só o que há é a vida para ser vivida. Com muito dinheiro ou sem nenhum, se vive até morrer. Em casa ou apartamento, sozinho ou acompanhado, comendo hamburger ou queijo de soja, todos nós viveremos até o momento de nossas mortes. E daí? Daí nada. Só estou falando. Tem coisas que não dá para entender. Essa coisa de política, por exemplo, quando falam de orçamento e toda essa burocracia…devem ter inventado isso para não ficarem desocupados. Já eu, prefiro me ocupar com a arte, a poesia, a música, o cinema. Gosto mais do museu do que do banco. Prefiro um concerto a um cartório. Mas é isso, o que se há de fazer?

Se eu pudesse escolher, por exemplo, quem estou esperando, escolheria alguém que chegasse logo. Mas não só isso. Que chegasse logo e que trouxesse notícias. Notícias de longe, muito longe. Sobre pessoas que nunca vi, que vivem de um jeito que nunca imaginei e me mandassem lembranças.

Entraria alguém de botas sujas de lama, uma mala grande com objetos estranhos e um livro gordo na mão. Um livro de histórias de gente e de deuses, com muitas ilustrações coloridas. Claro que leríamos juntos e eu poderia entre uma página e outra, tirar umas dúvidas e me surpreender com tudo.

Já andei pensando em pintar um quadro com uma cena de suicídio que ninguém pudesse ver. Como essas artes modernas. Um suicídio discreto. Estava justamente pensando porque as pessoas se matam. Provavelmente é porque se sentem muito só e passam a acreditar que não servem mais pra nada. Imagino que se isolam tanto do mundo de fora que não conseguem enxergar uma forma de se tornarem úteis. Perdem o contato com o mundo de fora e sufocam pedindo socorro, mas ninguém ouve. Deve ser triste não ter outra saída senão a morte. Não estou dizendo isso por achar a morte uma coisa horrível, mas pela incerteza do que há por lá. Nunca se sabe o tamanho da dívida e as condições de pagamento.

Também tenho pensado em plantar umas flores na varanda. Chato, é que, geralmente, demoram muito a nascer e se acabam num instante. As flores são como o sorriso, para serem verdadeiras têm de ser efêmeras (quem disse isso?). E aí, ficam uns galhos e umas folhas verdes o resto do ano. Não desgosto das folhas verdes e dos galhos, mas é que não são tão divertidos como as flores. O ideal seria fazer um estudo para saber as épocas das flores e plantar um monte delas, de forma que, quando uma espécie se acabar, logo, brote outra. Assim terei flores o ano inteiro na varanda.

Já é quase de manhã e nada. Essa longa espera só não é pior porque penso em coisas pra passar o tempo. Já andei pensando que talvez, não chegue ninguém. Se isso acontecer, não vou saber pois vou estar esperando ainda. A não ser que eu desista de esperar. Mas o que eu poderia fazer, então? Esperar não é uma atividade que exija exclusividade. Enquanto espero, vou pensando em coisas, ouvindo as músicas, fumando e tomando goles de refrigerante e água. Ocorreu-me de repente que estaria esperando pela morte. Com aquela capa preta e a tal foice na mão. Ai….

Queria muito ter um papagaio mas como é proibido teria que arranjar um jeito de comprar por aí, escondido da lei. Não me importo com a lei. Só não me empenhei nisso ainda porque estou resolvendo uns problemas éticos sobre a questão. Afinal se eu adquirir um animal silvestre, em extinção, estarei incentivando a caça…eu sei que 1 papagaio não vai fazer diferença e que eu posso, do meu ponto de vista, humano, ocidental e urbano, tratar dele muito bem e oferecer muito mais conforto do que ele encontraria nas árvores da Amazônia. Mas se houver um monte de gente no mundo pensando isso também? Aí, bau-bau papagaios….Acho que não seria uma boa idéia mesmo. Já me disseram que essas aves mordem a gente, além disso, nunca senti atração por aves. Gosto mesmo é dos mamíferos, principalmente dos elefantes. Ah! Como são lindos os elefantes com aquelas trombas flexíveis e os olhos tão meigos quanto os de uma criança. Se viesse um elefante me buscar no meio da noite, partiria com ele para o Quênia e nunca mais voltava aqui.

Outro cigarro e um bocejo. Me disseram que o bocejo é um ato involuntário do organismo em busca desesperada por oxigênio.  Outro dia fui assistir uma palestra na universidade e bocejei o tempo todo. Preciso explicar isso ao professor palestrante: não era falta de interesse e sim, de oxigênio.

E já que toquei no assunto, acho que vou dormir. Se alguém chegar e se for realmente importante, é claro que vai me acordar. Senão, não saberei nunca e amanhã estarei esperando de novo.

Boa noite.

1 Comentário

O que é Educação? Refexões – parte I

Educação sf. 1. Ato ou efeito de educar (-se). 2. Processo de desenvolvimento da capacidade física, intelectual e moral do ser humano. 3. Civilidade, polidez.

- Meus filhos só tiram nota boa na escola! Diz a mãe orgulhosa.

A menina de sete anos cruza as perninhas ao sentar-se. Só diz “obrigada”, “por favor”, pede autorização para tudo. Essa imagem me remete àqueles estereótipos de robôs escravos, programados para servir e provar a superioridade de seu proprietário e senhor em contraste com a sua incapacidade de pensar e decidir por conta própria. Isso é educação?

Jamais essa mãe pensará que só tirar notas boas pode não ser necessariamente uma coisa boa? Tirar notas boas no ensino tradicional, todo mundo sabe, não implica necessariamente conhecimento, não implica necessariamente aprendizagem. Sabemos, falemos bem baixinho, que, na maioria das vezes, implica em capacidade de memorização em curto prazo.

Qual é a vantagem então do seu filho só tirar notas boas na escola?

Eu, sinceramente, não vejo nenhuma, além de passar de ano e ser o “orgulho dos pais”. Vejo vantagem em crianças curiosas, corajosas, que procuram informações, que pensam a respeito do mundo, que se arriscam a inventar soluções, usando aquilo que costumava nos diferenciar dos outros animais, o raciocínio. Não é por acaso que essas crianças, freqüentemente, entediam-se nas escolas, tiram notas apenas razoáveis, perdem o foco de atenção nas aulas e dedicam-se a outras atividades, o que resulta em advertências para os pais e, não raramente, em diagnósticos de dificuldades de aprendizagem acompanhados de indicações de psicólogos e psicopedagogos para “adequá-las ao sistema”. Muitos pais não têm tempo para prestar atenção em seus filhos, não têm tempo para brincar com seus filhos, não têm tempo para conversar com seus filhos. Muitos pais não conhecem seus filhos, senão através do boletim e da caderneta de anotações da professora.

Esses pais que não ouvem os seus filhos, que não perguntam o que eles gostam, impõem o que eles, pais, acreditam que seja bom, certo, útil. E esses pais acreditam que sabem tudo, que sempre têm razão e que seu filho, pobrezinho, é incapaz MESMO de fazer qualquer coisa sozinho.

Gaiarsa nos fala do esforço da mãe antiga na “educação” de seus filhos. Ela precisa ser insubstituível porque abriu mão da própria existência para se dedicar às crianças. Ela faz tudo por eles e eles não aprendem a fazer nada, quando aprendem não fazem porque há quem faça por eles. Fora isso, a auto-estima dessas crianças fica muito prejudicada, pois elas nunca têm a oportunidade de fazer nada, de se sentirem capazes, de resolverem problemas. Muitas dessas mães, muitas mesmo, insistem em cuidar dos filhos para sempre, produzindo aquelas cenas ridículas da mamãe que arruma as roupinhas do executivo quarentão ou, mais bizarro ainda, da mamãe, que invade o quarto do casal para levar o leitinho do filho que não tem se alimentado muito bem.

Essas mulheres criaram uma armadilha difícil de escapar. Se elas deixarem seus filhos crescerem o que será delas? Qual será sua utilidade? Que sentido terá sua vida? Quanto mais dependentes são os filhos, mais escrava é a mãe. Essa situação, por incrível que pareça, é cômoda para muitas mulheres. Por isso mesmo, ainda hoje, vemos jovens mães reproduzindo a vida de suas mães, avós, bisavós, etc.

Impor às crianças pais donos de verdades absolutas, infalíveis, que sabem tudo é um erro grosseiro. Acreditar que as crianças são incapazes de compreender a vida é uma estupidez. A capacidade de percepção das crianças é muito maior do que a dos adultos, já viciados em máscaras. Os pequenos sabem quando mentimos, quando entramos em contradição, quando estamos inseguros, com medo. Se nós negamos nossas expressões corporais e nos agarramos ao discurso vazio das aparências, perdemos a nossa credibilidade. As crianças deixam de acreditar em nós e passam, então, a imaginar e interpretar nossas reações e nossas mentiras de acordo com as circunstâncias e com suas observações.

Deixar as crianças vendo TV a tarde toda é muito prático. Não compartilhar desse momento, não conversar sobre o que foi visto, é mais prático ainda, poupa tempo e reduz a bagunça (aquela que só a mãe sabe arrumar). Mas são os pais que ensinam aos filhos a imitação da TV. São eles que repetem o que ouvem como verdade absoluta e são eles que procuram nas lojas as roupas e os objetos mostrados na TV. São os pais que ensinam aos filhos a desejarem sem questionar, a fazerem o que todos fazem sem pensar a respeito. Só porque saiu na TV, só porque saiu no jornal, porque está escrito nas “escrituras sagradas do senso comum”.

Os pais se justificam dizendo: – ele vê isso na televisão, é ele que gosta.

Televisão?

Antigamente, os filhos acreditavam que seus pais eram as melhores pessoas do mundo. Até certa idade, todas as crianças queriam ser como seus pais. Hoje, não é mais assim. Os pais são uns imbecis que não têm opinião, que não têm aspirações, que não têm sabedoria nenhuma. São eles que imitam a TV.

Aquela mesma mãe orgulhosa das boas notas dos filhos, de repente, ouve o filho falar de um assunto que ela não domina e se surpreende:

- Nunca falamos sobre isso em casa!

Se ela considera uma bobagem, esquece o assunto. Se o tema for polêmico, desvia, desmente e esquece o assunto, provavelmente dizendo:

- Pare da falar besteira e vai estudar, menino!

2 Comentários

A Educação na Sociedade de Informação

Os novos recursos tecnológicos disponíveis para a educação representam, mais do que uma mudança no formato dos materiais didáticos, uma necessidade de se repensar os antigos métodos de ensino e modelos de formação acadêmica. Isto é, como reflexo de todas as transformações sociais a educação precisa estar voltada para a formação multidisciplinar do indivíduo uma vez que ele, no mercado de trabalho, vai necessitar dos mais variados conhecimentos, já que a velocidade da renovação tecnológica implica na existência de um profissional adaptável às diferentes tecnologias. Assim, pode-se sugerir que o ensino adequado ao novo contexto não é aquele que se preocupa em transmitir uma grande quantidade de informações ao aluno, mas o que é capaz de desenvolver no estudante habilidades que lhe permitam lidar com as informações disponíveis a seu favor. Em outras palavras, em uma sociedade na qual há uma enorme rotatividade de informações, a escola se torna inútil quando se restringe a transmiti-las, pois hoje,  “torna-se importante aprender a adaptação aos novos instrumentos e aos novos processos de trabalho para que deles se possam extrair altos desempenhos; a ser um consumidor crítico e não um mero objeto das estratégias de venda do sistema massificador da sociedade de consumo; e a adaptar-se rapidamente a novos lugares e ambientes sabendo deles tirar partido. Ter-se-á, por exemplo, de aprender técnicas de reconhecimento, de observação e de integração a novos ambientes”. (Carmo, 1997, pág. 114).

A relação entre a abordagem pedagógica e o tipo de aprendizagem é explicada por Morgan (1995) como uma das mais importantes questões tratadas em recentes pesquisas. Para o autor, a fundamentação do conceito sobre o tipo de abordagem no processo de aprendizagem pode ser profunda ou superficial e a forma como se dá essa abordagem diferencia a aprendizagem dos estudantes.

O tipo de envolvimento do indivíduo com seu aprendizado determina a maneira como ele focaliza um tema do conteúdo que estuda ou como escolhe ferramentas para seu trabalho. Os estudantes que têm um envolvimento profundo com os temas estudados conseguem atingir um entendimento efetivo, enquanto que aqueles que abordam o material de estudo superficialmente, visam a memorização do material e, consequentemente, não desenvolvem sua capacidade reflexiva. (Marton,1976).

Obter um conhecimento gerado de um entendimento do assunto e construir significados a partir das atividades de aprendizagem com as quais os estudantes estejam engajados, são os principais objetivos da educação. Para isso, é necessário desenvolver o potencial intelectual e criativo dos alunos, seu entendimento e capacidade de julgamento, habilidade para solucionar problemas, capacidade de comunicação e compreensão das relações com as quais ele aprende e a percepção de seus campos de estudo em uma perspectiva mais ampla.

Considerando as colocações de Morgan (1995), pode-se dizer que a simples transmissão de conhecimentos característica do ensino tradicional resulta em uma aprendizagem superficial. As abordagens pedagógicas que visam a autonomia e a apropriação do processo de aprendizagem podem oferecer aos estudantes a possibilidade de desenvolver uma relação com o conhecimento, gerando uma aprendizagem mais profunda.

* In: Alcantara Gomes, M.  “Análise dos Fatores que Influenciam o Planejamento e a Implementação de Ambientes de Aprendizagem a Distância: estudo de caso de um programa que não deu certo” Rio de Janeiro: UFRJ 2001, 95 p. Dissertação de Mestrado.

2 Comentários

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.