Em 1997 realizei uma pesquisa sobre a influência da televisão em crianças de 1ª a 4ª séries do ensino fundamental, que resultou em minha monografia de graduação. Nessa ocasião me impressionou a diferença entre as infâncias nas classes sociais. Meu objetivo foi comparar os comportamentos e pensamentos das crianças de uma escola particular da zona sul e de uma escola pública de uma comunidade carente da zona norte do Rio de Janeiro.
Nas minhas entrevistas, sempre em grupos de quatro a seis crianças, pude observar que a infância na favela, embora muito influenciada pela televisão, estava mais próxima da infância do “meu tempo”, com brincadeiras ao ar livre, aventuras, animais selvagens que habitavam o morro, idealizações de uma profissão, liberdade de pensamento e muita imaginação. Em contrapartida, as crianças de situação social mais privilegiada, viviam em uma espécie de “mundo adulto de mentirinha”, cercadas de regras adultas, preconceitos, necessidades de cuidados com a aparência e com o comportamento que as tornavam pequenos adultos padronizados, aprisionadas a um modelo de vida mecânico e nada autêntico. Obviamente, essas crianças passavam mais tempo diante da TV do que as crianças economicamente menos favorecidas. Mas isto não acontecia porque as mais pobres não tinham aparelho de televisão (muitas vezes possuíam em maior quantidade), nem porque os pais não permitiam que elas assistissem TV (ao contrário, as mães imploravam aos filhos que ficassem dentro de casa para se protegerem de eventuais tiroteios, tão comuns nas favelas).
Poderia dizer que no morro não tem trânsito como na cidade, mas tem tiro. Poderíamos supor que a geografia da favela é mais atraente para brincadeiras ao ar livre, mas os playgrouds dos condomínios fechados não foram projetados para isso?
Atribuo essa diferença de comportamento a uma variação cultural, simplesmente.
Hoje assisti ao documentário “Criança, a alma do negócio”, dirigido por Estela Renner e produzido por Marcos Nisti. Um trabalho muito especial, executado com maestria, que fala sobre a publicidade dirigida às crianças. Na verdade, esse vídeo traz elementos que vão muito além do tema proposto e nos leva, obrigatoriamente, a uma reflexão dolorosa mas necessária.
Aquele sentimento estranho que tive com os resultados da minha pesquisa em 1997 voltou. É triste constatar certas realidades. Ainda que estas nos sejam óbvias, quando ditas claramente, quando escancaradas diante dos nossos olhos, chocam, apavoram, desesperam.
Penso nos adultos de um futuro muito próximo. Um futuro que já é presente e no qual você é o que você tem. A inclusão social se dá pelo patrimônio material. Quem não pode “ter” fica nos guetos, frustrado, humilhado.
Nossas crianças são estimuladas a um desejo de consumo irreal, desnecessário, que nunca preenche o vazio existencial que, tão precocemente, se apresenta em meio a tantos produtos e máscaras. Não ter é ser impotente, é ser incapaz e sem valor.
A individualidade se esvai. Vivemos em um processo incessante de homogeneização, criando uma sociedade igual, monótona, povoada por criaturas padronizadas e mecanizadas.
Os pais se matam para poderem oferecer aos filhos todos os brinquedos, roupas e aparelhos eletrônicos que, muitas vezes, não são sequer usados. E as crianças querem mais e mais. Ninguém pode suportar a frustração de não ter.
Antigamente, sofrer era parte da vida. Levar uma bronca, não poder comprar um brinquedo, ficar de castigo, terminar um namoro, eram pequenas dificuldades do cotidiano de qualquer um de nós. Hoje, é inadmissível sofrer. Pode-se comprar parcelado, pode-se tomar um comprimido para a tristeza, pode-se esquecer o que é desagradável e só viver o lado bom da vida, mesmo que seja falso.
Essa vida de mentira, essa MATRIX, produz crianças adultas e adultos infantis. Não permite o amadurecimento, a experiência real da vida, com suas dores e seus amores.
A imaginação vai se tornando um atributo cada vez mais raro.
Brincar de viajar em um disco voador, usando um lençol sobre duas cadeiras?
Se você for do meu tempo tudo bem.
Senão, você compra um disco voador “de verdade”, inflável ou automático, monta, brinca e depois esquece em um canto qualquer porque inventaram um vídeo game muito mais realista.
Será essa uma nova cultura? Uma nova maneira de existir? Tudo bem. Pode ser.
A sociedade é dinâmica, tem que ser. Nós, os mais antigos, nos assustamos um bocado com as transformações enquanto que os mais jovens acreditam que sempre foi assim ou que a vida antigamente era inviável…
Quando legalizaram o divórcio, houve uma grande preocupação com a cabecinha das crianças, filhas de pais divorciados e, olha só: tudo se ajeitou, não foi? Bem ou mal, mas pra bem, eu acho, hoje temos uma diversidade interessante de configurações familiares e as crianças construíram, a seu modo, uma forma de lidar com essa “novidade” que para elas era só a única realidade.
O meu sentimento não é exatamente uma preocupação com as “novidades” do nosso mundo atual. É mais uma reflexão sobre o caminho que estamos tomando. Parece-me que estamos construindo um conceito de felicidade cada vez mais distante da capacidade humana.
O que buscamos na vida, no meu entendimento, está se tornando cada vez mais irreal. As realizações, cada vez mais, instantâneas e frágeis. As conquistas expressas têm um sabor menos elaborado e a vida vai ficando sem graça.
Bom, esse é apenas um ponto de vista.
Para quem tem interesse na discussão e quer pensar mais a respeito, segue o link do documentário “Criança, a alma do negócio” de Estela Renner.
http://www.culturainfancia.com.br/portal/index.php?option=com_content&view=article&id=820:documentario-crianca-a-alma-do-negocio&catid=132:artigos-e-teses&Itemid=168
A produção do documentário abriu mão dos direitos autorais, para que o mesmo possa ser assistido por todas as pessoas que tiverem interesse no assunto.